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sábado, 10 de março de 2012

ENTREVISTA COM TUAREG














Entrevista com um Tuareg realizada por: Victor – M. Amela
A Moussa Ag Assarid

Não sei a minha idade.
Nasci no deserto do Saara sem documentos.
Nasci em um acampamento de nômades Tuareg entre Timbuctu e Gao , ao norte de Mali .
Fui pastor de camelos , cabras , cordeiros e vacas do meu pai . Hoje estudo gestão na Universidade de Montpellier .
Estou solteiro .
Defendo os pastores Tuareg .
Sou muçulmano , sem fanatismo .

- Que turbante , tão formoso .

- É uma fina tela de algodão : permite tapar o rosto no deserto , e continuar a ver e respirar através dele .

- É e um azul belíssimo !

- Nós os Tuaregs , somos chamados de homens azuis por isso ; o tecido solta alguma tinta e nossa pele adquire tons azulados .

- Como conseguem este tom de anil ?

- Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais .
Para os Tuaregs o azul é a cor do mundo .

-Por que ?

- É a cor dominante. É a cor do céu , do teto da nossa casa .

- Quem são os Tuaregs ?

- Tuareg significa “ abandonados “ , por que somos um velho povo nômade do deserto , solitários e orgulhosos : “ Senhores do deserto “ , é como nos chamam . Nossa etnia é a amasigh ( bereber ) , e o nosso alfabeto , o tifinagh .

- Quantos são ?

- Uns três milhões, e a maioria permanece nômade. Mas a população diminuiu.
“ É preciso que um povo desapareça para que saibamos que ele existiu “ : Apregoava um sábio . Eu luto para preservar este povo.

- A que se dedicam?

- Pastoreamos rebanhos de cabras, camelos, cordeiros, vacas e asnos num reino de imensidão e silêncio.

- O deserto é realmente tão silencioso?

- Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração . Não há lugar melhor para se estar sozinho.

- Quais recordações de sua infância você conserva com mais nitidez?

- Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne , nós as levamos onde há água e pasto …
Assim fizeram meu bisavô , meu avô e meu pai…. e eu .
Não havia outra coisa no mundo além disso . E eu era muito feliz com isso.

- De fato! Não parece muito estimulante…

- Mas é muito! Aos 7 anos já te deixam afastar-se do acampamento para que aprendas coisas importantes : farejar o ar , escutar , apurar a vista , e as estrelas …
E a deixar-se levar pelo camelo , se você se perder . Ele e levará onde há água.

-Saber isso é valioso, sem dúvida …

- Ali tudo é simples e profundo .
Existem muito poucas coisas . E cada uma tem um enorme valor!

- Então esse mundo e aquele são muito diferentes?

- Ali cada pequena coisa te proporciona felicidade . Cada toque é valorizado . Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos e estarmos juntos . Ali ninguém sonha com chegar a ser , por que cada um já o é .

- O que mais o chocou em sua primeira viagem á Europa ?

- Ver as pessoas correndo pelo aeroporto. No deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia. Assustei-me! É claro!

-Eles iam apenas buscar suas malas…

- Sim ! Era isso . Também vi cartazes de mulheres nuas. Me perguntei : por que esta falta de respeito para com a mulher ?
Depois no Íbis Hotel , vi a primeira torneira da minha vida , vi a água correndo e senti vontade de chorar …

-Que abundância ! Que desperdício ! Não ?

-Todos os dias da minha vida consistiam-se em procurar água .
Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá , continuo sentindo por dentro uma dor tão intensa …
- Tanto assim ?

-Sim ! No começo dos anos 90 houve uma grande seca . Morreram animais e nós também adoecemos . Eu tinha uns 12 anos e minha mãe morreu .
Ela era tudo para mim !
Me contava histórias e ensinou-me a contá-las muito bem .
Ela me ensinou a ser eu mesmo .

- O que sucedeu com a sua família ?

- Convenci meu pai que me deixasse ir á escola .
Quase todo dia caminhava 15 km . Até que um dia o professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me dava o que comer , quando eu passava em frente á sua casa . Entendi que esta ajuda vinha da minha mãe .

- De onde surgiu este desejo de estudar?

- Uns dois anos antes havia passado pelo nosso acampamento o rally Paris- Dakar , e uma jornalista havia deixado cair um livro da sua mochila . Eu o apanhei e o entreguei . Ela me deu o mesmo de presente . Era um exemplar do pequeno Príncipe e eu me prometi que um dia conseguiria lê-lo .

- E conseguiu ?

_ Foi assim que consegui uma bolsa de estudos na França .

-Um Tuareg na Universidade !

- Ah ! o que mais sinto falta aqui é o leite de camela … E o calor da fogueira , e de andar com os pés descalços na areia quente . Lá nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras como cada cabra é diferente . Aqui á noite , você olha para a TV.

- Sim ! E o que voce acha pior aqui ?

-Voces tem tudo , mas não acham suficiente . Vocês se queixam . Na França passam a vida reclamando ! Aprisionam-se pelo resto da vida á uma dívida bancária , num desejo de possuir tudo rápidamente …
No deserto não há congestionamentos e você sabe por que ?
Por que lá ninguém quer ultrapassar ninguém !

- Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante .

- Todo dia , duas horas antes do pôr-do-sol : a temperatura abaixa , mas ainda não chegou o frio , e os homens e os animais , lentamente voltam para o acampamento e seus perfis são recortados em um céu cor-de-rosa , azul , vermelho , amarelo , verde …

- Fascinante , na verdade …

- É um momento mágico . Entramos todos na cabana e colocamos o chá para ferver .
Sentamo-nos em silêncio a ouvir a ebulição …
A calma invade todos nós e o nosso coração bate no ritmo da fervura …

- Que paz !

AQUI VOCES TEM RELÓGIO, LÁ NÓS TEMOS TEMPO !!!